Monday, July 17, 2006

A primeira e última

Já passou quase um mês, mais coisa menos coisa. Olhei-te nos olhos da última vez, e acho que mesmo nesse momento, jamais fui capaz de ultrapassar a barreira na vida que a tua distância me impôs. Tinhas o corpo maltratado, esventrado pela enfermidade. Moravas na minha rua, visitava-te como enfermeiro todos os dias. Todos. Moras numa casa muito humilde, paredes a cair, um João Paulo sorridente, flores artificiais com muito pó e sujidade, tudo a compôr um cenário cheio, impregnado de pobreza. Tinhas uma irmã que atendia sempre sorridente, a voz trémula, a cabeça permanentemente a abanar. Falava, não falava...Havia o cheiro que não nos largava, o lixo, a velhice abandonada a gritar revolta aquele estado de coisas..Não consegui estar a teu lado, e como me sinto culpado por isso...

Jamais esqueçerei a tua casa, a tua cama, as tuas migalhas, as tuas feridas, a tua dor, o teu silêncio, a minha incapacidade, a minha frieza, o meu último olhar a dizer...Wadizenia

Wednesday, February 01, 2006

OLHA QUE DUAS NA SALINHA DO CHÁ

Saturday, January 28, 2006

APROXIMAÇÕES AO FRIO

Tenho necessidade de falar do frio. São apenas -25 graus todos os dias. Com as mesmas pernas, as mesmas mãos. O nariz de sempre. As orelhas de pequeno. -25 GRAUS TODOS OS DIAS.
Imaginem que estão na Serra da Estrela, nessa bela localidade chamada Seia, depois daquele amor gostoso ao lado da lareira. Copos vazios em tons azulados. O Bordeaux quase vazio. A voz de Ellis a explicar-nos porque amamos assim. Estão a tomar banho, a limpar os entrefolhos, as miudezas e o gás....acaba....Imaginem que não há toalhas e tem que sair com o corpo molhado, atravessar a escuridão nevada de lanterna em punho, para trocar a bilha. É ASSIM O FRIO...Uma pequena diferença. Isto é apenas um dos meus inúmeros delírios. Amanhã quando sair da residência, o meu corpo vai estar igualmente molhado e não há toalhas que me possam valer. E isto, meus amigos, não é ficcão.

NEVE F.D.P.

P...da neve!!!!!!! Quem diz que a neve é especial, romântica, bla,bla, blaaaaaa, e todas essas tretas, por favor....por favor não se aproxime de mim. A neve é bonita o c...lho. Vou mandar esse mito para a p....q...o pariu.(Sabe-me bem ser um "pouco grosseiro"). Começarei por aqueles flocos assassinos, pontiagudos que não fosse a minha lendária ligeireza já me teriam vazado a vista, mais que uma vez. Sim,a neve não é toda fofinha, inofensiva. Há os calhaus vaza-vistas também. Nesta saga anti-neve previno-vos para não pisarem neve, com neve entalada na sola dos sapatos...Aterrorizador. Sabem o que é arrancar algodão e ficar todo arrepiado. MUITO PIOR. E quando as senhoras limpa-neves (sempre as mulheres a assumir o trabalho duro)lembram-se de fazer pontaria à tua cabeça e ainda tens que assistir aqueles risinhos acompanhados de desculpa. Desculpa é o ca....lho. As desculpas não se pedem, evitam-se, lá dizia o meu querido avô contador de história. Já para não falar dos inúmeros buracos negros em que cai. Quantas velhas desdentadas, digo desprovidas de arcada dentária tive que derrubar.

TRAUMATIZANTE

Mal posso esperar pelo meu divã. Esperam-me horas e horas de trabalho terapêutico para me libertar deste pesadelo. Portanto, muito cuidadinho quando ousarem falar da P...da neve. Não respondo por mim.

P.S. Há poucas coisas no mundo mais especiais que uma bela mijadela canino ou felino, nessa monotomia cromática chamada neve.
Já ouço as vozes..."Coitadinho, era tão bom rapazinho". Tento dizer, em silêncio, a culpa é toda da P....da neve...

OLHÓ O QUILO....

Só num pais mortinho para se libertar de um passado traumático, feito de ecos nazis e recordacões colaboracionistas, é que alguém se poderia lembrar de ganhar a vida com despojos alheios. Trata-se de roupa usada e ao quilo. Mais, o preço do quilo varia diariamente, quase como a inflação brasileira há uns anos atrás. Ainda não percebi porque é que o quilo ao sábado é o mais baratucho da semana, logo um dia potencialmente bom pró negócio. Acho que vão falir rapidamente. Pela minha parte, cumpri o que seria esperado de qualquer cliente. Entrei naquele galpão, a tresandar a "mofalhada" da boa, à procura do meu casaco roubado, ou alguma coisa que lhe valesse. Revirei de alto a baixo aquele curioso lugar, entre um digno casaco militar de um qualquer soldado raso desta pátria enxovalhada e o número 23 do Jordan, encontrei um casaco que me pareceu bem razoável no peso, na feitura e boniteza....Ainda tinha que passar o teste da balança...
Coloquei o dito em cima da balança e não é que aquela casaquinho aparentemente insignificante, filho enjeitado de uma família wilkopaka, fez valer a sua qualidade, em peso. MUITO PESO. Disse" F...-se, que é pesado pra c...." A menina do outro lado do balcão compreendeu o teor grave das palavras e recolheu discretamente o meu casaco. Vim-me embora a pensar que tinha de palpar mais melões pelo verão...

Friday, January 27, 2006

PESADELO EM VINARSKA STREET

No meu pior pesadelo (não, não é perder o avião de volta. quanto a isso prometo estar atenta. quer dizer já não prometo nada) o telemóvel da Rita toca. E porquê o da Rita? A razão minoritária é porque ela nunca mais muda aquele toque dos Evanescence. Pois, é que o toque polifónico consegue ser pior que o concerto da Amy afónica no Rock in Rio (acaba agora de me oferecer outras hipóteses, entre as quais David Fonseca Loveee lovee ain´t this enough AGAIN Loveee lovee ain´t this enough MAIS UMA VOLTA NO CARROSSEL? QUEREM TURBO MINHA GENTEE???- até o outro lado da linha se cansar- e o macaquinho na aldeia dos macacos a mostrar a sua adolescente e alegre pujança vocal, que é o toque especial para o amigo obsessivo da Rita. A razão maioritária porque tremo como varas verdes quando o telemóvel da Rita toca é, é....ser a ZUZKA! O pesadelo tem uma cara. Pois. Parece um nome inocente, não parece? Já vão ver. É checa, tem cara de capuchinho vermelho e usa um barrete amoroso com um pompom e prolongamentos para aquecer as orelhas. Não se surpreendam, porque aqui ninguém tem complexos de os usar e são felizes assim. Se eu não ficasse com cara de PIZZA também quereria um.
Vou começar por vos explicar como conhecemos a ZUZKA: íamos todos os seis no TRAM, Rita, Sara e quatro portugueses aspirantes a médicos, em amena cavaqueira, não passando nada despercebidos. Para a Tcheca, como diz o Davi, somos muito ruidosos.
Uma rapariga, a ZUZKA olha para nós e ri-se a cada deixa. Comecei a suspeitar da sua filiação política. Perguntei-lhe então, incautamente, como hoje reconheço, se falava português.
Ao que ela me respondeU:
- SIIAMMMM! UM......POU.......HUMMMM...QUINHO!
Estuda português e espanhol e ficou muito contente com a perspectiva de vir a melhorar Aa nossa língua.
Não imaginam o ESFORÇO HERCÚLEO que um eslavo faz para se atrever nas letras lusas. A rapariga contorcia-se, os seus membros tesos, os lábios apertados, os punhos cerrados, a face desfigurada no esforço. Eu juro-vos que se soubesse tinha-lhe poupado o sofrimento.
Acabámos por trocar mails. E temos combinada uma saída há não sei quantos dias.
E o pesadelo...é receber um telefonema dela. Uma pessoa em sofrimento, do outro lado da linha, em local indeterminado é de levar um futuro profissional de saúde à angústia extrema. Se a miúda precisar de uma massagem cardíaca, que é que vai ser dela?
Estive dez minutos para lhe explicar que nos podíamos encontrar hoje e só nos percebemos quando eu lhe disse Viernes.
No entanto é muito simpática e já nos convidou para ir a casa dela.
GOSTAVA DE TER A MESMA FORÇA DE VONTADE PARA APRENDER A FALAR CHECO!

"-PORTUGUÊS...É DIFÍCILEEE...MAS É.... HUM AMMM HUMMM...BONITO!"

Praha


Old Town Square! Quentinha, não a ouves a estalar?
http://www.praha-mesto.cz

Tuesday, January 24, 2006

LANÇAMENTO DO FOGUETÃO

18 de Janeiro, 10h17m, local arredado da civilização mas com fábrica de cerveja e banca de queijo frito e cachorros quentes

A arguida, de nome Ana Rita Silva, nascida em fins de Março, por isso Carneiríssima, encontrava-se no quarto 5 do Hospice* de Rajharad. Fortes Indícios de Cumplicidade com a Cama.

Vamos reconstituir a cena do crime:

A Rita encontra-se no quarto 5, junto à cama da Sra. M. FOGUETÃO, depois da banhoca à gato que todos os enfermeiros conhecem tão bem. Nota-lhe um rubor descamativo na região frontal, imediatamente acima dos arcos supra-ciliares e, solicita, vá de tentar demonstrar em checo à atenciosa enfermeira Jana que teria todo o gosto em besuntar a face da simpática senhora com um creme hidratante. Não há creme. HÁ ÓLEO. Temo pela saúde do mobiliário circundante, mas muito mais pela Sra. FOGUETÃO, que ficará mais escorregadia do que alguma vez terá experimentado.
Ao mesmo tempo que a face luzidia começa a ganhar forma pelas mãos da Rita, a Sra. FOGUETÃO antes deitada na cama, ergue as costas da cama gradualmente. A Rita aparentemente não repara tenta rectificar algumas zonas faciais que não levaram a 5ª camada de óleo. A Sra. FOGUETÃO está sentada agora a 90º e continua com aceleração constante a preparar-se para bater com a fachada nos cobertores, como se estivesse a fazer alongamentos. A Rita continua concentrada na massagem.
Não, a Sra. FOGUETÃO não está hipnotizada.
A Rita está a pressionar o telecomando da cama com a barriga.

A semelhança deste episódio com a realidade é uma real infelicidade para a senhora FOGUETÃO.
As nossas mais sinceras desculpas.
Apesar dos mais sinceros esforços do staff checo e da própria Rita, este episódio não foi ímpar: a cama da Sra. SYRUP também tentou cuspi-la.

*não confundir com hospício apesar de lá poderem encontrar no mesmo quarto 5, duas velhinhas amorosas, mas perfeitamente adictas em líquidos que os respectivos biberãos vertem, um frasquinho com água, o da idosa surda-muda chá doce, que quando acaba garante a renovação com um sobre-audível SYRUPPPPPPPPP, SYRUUUPPP (a leitura é para ser efectuada num tom muito agudo, mesmo muito)

Wednesday, January 18, 2006

BAIRRO DO CENTRO RECEOU EXPLOSÃO

Noite. Subíamos a rua quando um carro da polícia surgiu de uma das perpendiculares em marcha-a-ré, furioso e urgente. O carro pára e fica estacionado no meio da estrada, bem na confluência de duas ruas. Uns passos depois constatámos o perímetro policial montado. Fitinha amarela de isolar redondezas desenrolava-se à nossa frente por uma agente de mini-saia, compenetrada na missão. Um grupo de rapazes no passeio, gritava preocupado palavras que não se entenderam na direcção de um andar alto, de um dos prédios da dita zona. Olhei a tentar esquadrinhar se alguém intentava uma aprendizagem de vôo de uma altura medonha, mas não vi ninguém. Entretanto, uma rapariga abandona o edifício a correr, carregando sacos de plástico atafulhados. Os rapazes e os polícias que esperavam ansiosos suspiraram de alívio. Apagão no bairro inteiro.BAIRRO DO CENTRO RECEOU EXPLOSÃO. Fuga de gás. Passei o caminho de casa a pensar o que é que salvaria na urgência. Pensei em livros e fotografias. A Rita garantiu que não se esqueceria da mãe. Rimos.

Os dois gatos pretos...

Não, não é um outro filme do Kosturica. Esta é a história de dois gatos pretos, que segundo rezam as crónicas, não simpatizam muito comigo. E eu que gosto de um belo felino, daqueles que vivem completamente indiferentes ao toque humano e gosto que gostem de mim, não posso deixar de assinalar este facto. Porra, para os gatos.
Trata-se de uma velha casa, a onde se chega atravessando um Cortiço. Para os incultos que nunca leram Aloizio de Azevedo, o cortiço são aquelas vilas operárias dos antigos bairros construídos sob a sombra de uma grande empresa. O Brasil das grandes cidades tem ainda várias destas curiosas comunidades. O Barreiro da Quimigal conserva ainda os seus cortiços. O nosso Joaquim vive numa espécie de cortiço, um pouco mais refinado, com uma localização privilegiada, mas é um cortiço. Como eu sei que estas explicações não foram suficientes, devo dizer que esta velha casa fica num pátio interior limitado por vários prédios com paredes descascadas. Tudo isto seria normal neste bairro, onde todas as fachadas escondem inúmeras outras habitaçóes, sejam elas mais prédios, casas, armazéns, terrenos baldios. É sempre um outro mundo quando se atravessa a primeira porta. Uma pequena diferença, isso mesmo, os dois gatos pretos. Nós temos a felizberta, a Felizmina, a Antonieta, a Maria das Dores a assegurar que tudo vai bem nos nossos prédios. A Sra.Stavana tem os dois gatos - iguais na sua obesidade mórbida embora muito digna e senhoril - a filtrar quem merece entrar ou não na sua velha casa. Uma senhora velha, com as agruras da vida costuradas no rosto, e um sorriso matreiro a quem chega de fora. Recebe-me todos os dias na sua quase-moto, uma gerigonça peculiar para a sua locomoção. Temos nos encontrado todos os dias, e desde o primeiro, Popovitch e Ilniev (os gatos) engendram formas diferentes de evitar a minha entrada. Ora, passam à minha frente sabendo o quão sou supersticioso, ora desatam num berraria desenfreada e insuportável para a audição humana. Acho que eles sempre souberam que eu ia construir uma relação de particular intimidade com a sua velha senhora. E isto tudo porquê, perguntam vocês...Apenas porque todos os dias a Sra.Stravna expõem alegremente o seu rabiosque...calma...é apenas uma injecção e a bela da massagem nadegal...
Saio sempre triunfante daquela casa, de peito entufado. Os gatos esboçam uma reacção mínima, levantam as bigodaças atiçadas. Pudera, sabem que o pior aconteceu....

O puto...

Fui convidado para um baptizado duma menina chamada Graciana. Que graçinha!! Queria misturar-me à séria nos forrogobós polacos. Houve missa, celebração cinzentona, um farto almoço com muitos nasdrovia para toda a gente, muitas crianças a saudarem o gajo diferente que se esforçava por cantarolar músicas infantis in polish. Disaster. Só eu para insistir no rídiculo. E o puto. Em plena igreja Matheiki, o puto enquanto o padre maldizia o mundo e os tempos actuais, desembrulhava diligentemente os vasos sagrados em cima do altar. Essa mesa de jantar sacralizada. Não pude deixar de me olhar com aquela idade, talvez um pouco mais graúdo. Um membro orgulhoso e galifão do grupo de acólitos da igreja da Portela. Disputávamos de uma forma pouco democrata, as nossas tarefas, os nossos serviços como solenemente designávamos aquilo que cada um tinha a fazer para conquistar a miúda que por essas alturas nos fazia corar de vergonha. Muito pouco nos interessava os nobres incómitos dum acólito, como servir a Deus, ou ser testemunhas privilegiadas do milagre da vida. O que interessava mesmo, era aquela miúda. A nossa miúda. Por isso quando vi o puto a cumprir o seu papel com tamanha competência, não pude deixar de procurar a miúda dele entre as pessoas que me rodeavam. Não a vi, mas ela estava lá seguramente...

Monday, January 16, 2006

Na terra de Guanches, Gofios, Guaguas... e morcela doce!!!

Por cá andamos... o tempo passa devagar (parece que estivemos em Portugal há muito tempo...) e incrivelmente rapido... a aventura Erasmus está quase a acabar.
E o que se faz por cá? O Pedrito Daniel e eu dizemos: NÓS GOSTAMOS É DE TAPAS! Não de "tapinhas" brasileiras (isso fica para a nossa intimidade...) mas de tapas daquelas que se comem, e que são características aqui das Canarias! As "papas arrugadas"... tipo batata a murro molhada num molho especial... delicioso! "Gofios"... uma farinha de milho que se come como tapa, como sobremesa em forma de "mousse", como pequeno-almoço, misturado no leite... eu não gosto! O Pedro aprova a mousse: COM DISTINÇÃO! Aquilo parece quando comes que é bom... mas depois sentes mesmo que é farinho... estranho! Mas o pessoal gosta... Mais?... Morcela doce!!! Como a nossa morcela, mas com passas e não sei que mais... é DOCE!!! lol Imaginam morcela doce?!? Eu também não... mas sim, existe! :) Depois as carnes, os queijos, os presuntos... mmmmmmm... (A ti, que me tens levado a provar tudo isto... ***)
Os guanches eram os povos que viviam aqui antes!
E as Guaguas.... já disse! Os belos dos autocarros!
Tem sido... vivências a cada segundo, brilho nos olhos, sorrisos cúmplices... passeios, noites bem dormidas, horas a fio na cozinha a rir que nem perdidos e a sujar a cozinha toda, toda... enquanto nos deliciamos com os nossos pratos!
Despeço-me, à boa maneira Canaria: CHACHO!!! UN BESAZO!!! :)
Como vou sentir saudades... Só quem vive, é que sabe.